As Múltiplas Faces da Metafísica: Unidade ou Fragmentação. O Conflito Hermenêutico entre Reale e Barnes na Leitura de Aristóteles
Este ensaio apresenta as ideias sobre a filosofia de Aristóteles de Giovanni Reale e Jonathan Barnes. Como veremos a seguir, os autores, especialistas em Filosofia Grega e Aristóteles, apresentam interpretações e análise em alguns momentos extremamente divergentes da obra de Aristóteles. À luz da hermenêutica de Paul Ricœur, a divergência entre Reale e Barnes não deve ser resolvida pela simples escolha de um dos lados, mas compreendida como expressão da própria condição interpretativa dos textos filosóficos.

Concordo com Reale. A metafísica é uma única e mesma ciência. Se não fosse assim, seria impossível conceber e estruturar qualquer ciência. Relacionada à sistematização e aos fundamentos, uma ciência deve ser necessariamente una, tanto nos princípios quanto nas conclusões a que chega. Se todo filósofo disser que a cosmologia, por exemplo, obedece a determinadas leis em cada momento histórico, então ela, quando surgirem novas leis, poderá tirar férias em Acapulco ou em Vila Nhocuné — é o famoso cambalacho científico, que não influi nem contribui em nada; um contrassenso, evidentemente.
Ademais, para Aristóteles, a existência é independente dos acidentes, já que estes podem desaparecer como por mágica. Enquanto não surge um David Copperfield que, a seu bel-prazer, faça Aristóteles desaparecer, mas não a metafísica, os acidentes, em pura mordomia, são sustentados pela substância, já que não são essenciais.
Além disso, a pergunta de Barnes sobre motores *ad infinitum* constitui uma *interpretatio falsa*, pois, mesmo sendo possível a existência de vários motores imóveis, sempre haverá um primeiro motor — que pode ser chamado de Deus, Alá ou Brahman, no hinduísmo —, conforme exposto por São Tomás de Aquino e pela Sophia Perennis. Esse primeiro motor é o que dá origem a todas as coisas: o ser, o conhecimento, a felicidade etc.
Por fim, Barnes não é preciso ao afirmar que a teologia é o estudo das coisas inamovíveis, pois ela é a ciência de Deus e das coisas reveladas por Deus, como diz o Aquinate. Um abraço.